O homem costantemente é lançado de volta para si mesmo

O importnte é compreender, escrever é uma questão de buscar essa compreensão.

sábado, 17 de julho de 2010

Conversas sobre cultura (Manutenção de grupos) – Xisto Bahia


Hoje tivemos um dia de intenso debate e provocações. Grupos de teatro e dança da cidade compuseram três mesas, onde foram abordados temas como: gestão de grupo, editais de manutenção e apoio para grupos, desejos artísticos, meios de sustentabilidade, retorno financeiro, conexão e interatividade com outros grupos, dentre outros. Diante de temas como esses, me sinto inquieta, com o desejo de entender esse universo tão vasto.
Tantos grupos, um desejo em comum: voltar o olhar para si.
O Dimenti diz que era preciso criar alternativas para que o grupo não morresse buscando interagir, conectar-se com outros grupos e novas linguagens. O Bando nasce com o desejo artístico de se expressar, buscar redes de interação com grupos, mesmo após 20 anos o grupo enfrenta as mesmas dificuldades em manter-se. O Tran-Chan há trinta anos vive de editais, com a linguagem da dança busca difundir um pensamento estético-poético-político. A Sua Cia de Dança, com muita sinceridade busca entender sua importância e valor artístico. Os Novos Novos com crianças nos emociona para falar do universo desses através da arte, com um trabalho iluminador propositor de uma juventude consciente, questionadora. O Vilavox com toda sua força política, irreverência e alma, se desnuda para falar da busca por autonomia. A Outra Cia de teatro com a coragem e força para viver dos seus feitos. E João Perene Núcleo de Investigação Coreográfica busca propor uma reflexão sobre a identidade do grupo. Na platéia, artistas que como eles fazem arte “pelo inferno e céu de todo dia”.
O que os grupos querem é preservar sua historia e repertório, se capacitar em áreas convergentes ( edição de vídeo e áudio, iluminação, gestão de grupo, dentre outros), ampliar sua atuação no mercado, ser assistido pelo maior numero de pessoas nos mais variados espaços. Busca-se construir um pensar artístico através de pesquisas que resultam numa criação artística. A busca pelo público é algo recorrente, ir ao seu encontro, sair da caixa cênica, ir para a rua, usar espaços não convencionais.
A principal questão abordada talvez tenha sido a necessidade de sustentabilidade pessoal, através da arte, fugir do segundo emprego “viabilizador” do fazer artístico.
Fica claro em encontros como esse a necessidade do dialogo entre a classe artística, a carência de nós, a falta de conhecimento e troca entre grupos com inquietudes muito próximas. Alem disso a falta de debate e articulação política para propor melhoras as autoridades públicas. Não sabemos como funciona a secretaria de cultura, a quem pedir “socorro” para manter nosso fazer teatral. Sozinha a secretaria de cultura não tem como abrigar nem virar mãe dos grupos. Mas leis antigas podem e devem ser rediscutidas para que sejam melhor executadas, e novas leis podem ser criadas visando atender as atuais necessidades. A gente precisa propor um diálogo efetivo com a secretaria do estado, como fez o Movimento Arte Contra a Barbárie, criado em São Paulo no final dos anos 1990, onde artistas e grupos de teatro, além de intelectuais, questionavam o modelo de financiamento da cultura baseado exclusivamente no incentivo fiscal e a falta de diálogo entre o poder público e a sociedade. E hoje, na nossa cidade, o que devemos questionar?
Em outros encontros tem se falado muito do momento atual como um momento de crise nas produções artísticas, jogando a “culpa” na falta de dinheiro para produzir bons espetáculos. Mas será que o problema está só na falta de dinheiro? Ou tímidas propostas têm sido feitas? Se tivéssemos todo o dinheiro do mundo, será que bons espetáculos seriam feitos, com propostas inovadoras, provocantes? No manifesto publicado pelo movimento Arte Contra a Barbárie eles dizem: “A aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria dos investimentos culturais de longo prazo que visem à qualidade da produção artística”.
O dinheiro destinado a cultura no estado da Bahia não chega nem perto do ideal, seu percentual é inferior ao da maioria dos estados Brasileiros, que já é pouco, se comparado ao de países considerados desenvolvidos. Não temos mercado de trabalho. Tenho tanto medo quanto meus colegas da escolha que fiz, mas agora é tarde, estou inflada demais para desistir, envolvida e com todas as culpas para me culpar de qualquer coisa, apaixonada demais para acreditar que o dinheiro possa ser o maior impeditivo de novas ações artísticas.
Quero parabenizar todos os artistas que com coragem perseveram e criam, mesmo quando tudo parece estar perdido. Que esses que fazem sejam exemplo para os que esperam tempos melhores, pois são os construtores do novo tempo. Que novas leis sejam propostas e debatidas para que tenhamos melhores condições de trabalho, vamos criar e discutir formas de sustentabilidade. Puxemos um pouco a responsabilidade, pela atual realidade dos artistas baianos, para nós, pois é a única forma de reagir, se articulando politicamente, buscando sempre entender como as coisas funcionam.

5 comentários:

  1. Muito instigante esta primeira esta primeira provocação de minha querida amiga Dani e fiquei com muita vontade de contribuir.
    QUERIA MUITO PODER PARTICIPAR DESTE MOMENTO IMPORTANTE PARA REFLEXÃO DOS GRUPOS ARTÍSTICOS EM NOSSO ESTADO.
    Infelizmente não pude estar presente neste encontro de tamanha importância, e não estava presente justamente por que estou escrevendo um projeto para manutenção de Grupo para um Edital da Fundação Cultural do nosso estado e que me toma um tempo enorme para criação e inúmeras revisões...
    É uma sensação de muito sufoco, são tantos procedimentos burocráticos e tantas incertezas, porém não tem jeito. Temos que permanecer firmes escrevendo, fazendo, fazendo, escrevendo e fazendo e escrevendo mais um pouco e mais um pouco e mais um pouco...
    Confesso que o cansaço é enorme e o medo de que as melhorias não existam, mas não desisto e sei que em algum momento teremos neste país uma prioridade na área cultural, não quero que este pensamento seja um devaneio, uma utopia. Quero sim poder viver somente de minha arte e uma arte com qualidade onde eu possa ter o apoio do meu Estado com a qualidade artística que o público merece ter.

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  2. AINDA COMO CONTINUIDADE DE MINHA PRIMEIRA COLOCAÇÃO QUERO CONTRIBUIR COM ESTA REFLEXÃO EXPONDO PARTE DE UM DISCURSO QUE REALIZEI EM UMA DISCIPLINA DE PRODUÇÃO CULTURAL NA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA EM 2010.1 TRATANDO DA IMPORTÂNCIA DO ATOR PRODUTOR NO PAÍS.

    SEGUE:

    • O “ator-produtor” como principal agente transformador

    A partir da ampliação e potencialização das capacidades profissionais do grupo de teatro, possíveis graças a um estudo continuado e um trabalho concretizado em equipe, será possível organizar as competências e investir na formação de atores-produtores (culturais), que poderão atender às demandas do teatro, por serem formados no próprio cotidiano. Gosto de usar este termo: ator-produtor, uma vez que considero imprescindível para o artista de teatro, estar a todo o momento envolvido com a gestão artístico-financeiro e desta forma buscar auto-gerir sua carreira.
    Além de atender uma demanda de profissionais de produção cultural e atuar em consonância com a importante função de formação de artistas com pensamentos empreendedores, ter um cuidado com a figura do ator-produtor torna-se notoriamente imprescindível. Uma dedicação ao aprimoramento de práticas administrativas no âmbito de grupos teatrais propiciará condições de inserir profissionais capacitados no mercado de grupos artísticos, tão carente de profissionais especializados. Para tanto, é extremamente necessário a capacitação contínua com outros parceiros, que propiciem novas situações-problema, novos desafios e trocas de experiências.
    Por isso buscar parcerias com outros grupos artísticos para capacitar-se torna ainda mais valioso o aprendizado e visa um importante papel na formação de artistas com pensamentos coerentes da realidade de uma vida artística encontrada em nosso país e, principalmente na Bahia.
    Acredito que o produtor de teatro deve estar atento as diversas possibilidades de expressões artísticas, elas podem e devem ser um poderoso meio de comunicação entre pessoas de diversas origens. Um produtor artístico atento às potencialidades e estéticas encontradas em cada grupo de teatro, pode fortalecer aos principais objetivos de integração das diversidades culturais e procurar entender o imaginário e os valores de cada cultura.
    Mesmo dentro de um contexto particular de grupo de teatro com o foco em estudo de linguagem onde se desenvolve determinada linha estética, o ator-produtor deve aceitar outras possíveis soluções, estabelecendo uma relação dialética entre a tradição e a inovação, entre a assimilação e a manutenção de valores, criando-se novas relações estéticas e enriquecendo o patrimônio cultural brasileiro.
    Penso que é possível sintetizar o espaço do ator-produtor em vertentes que visam ao desenvolvimento artístico, à capacitação profissional nas áreas das artes e da cultura e à ampla difusão do que é produzido por seu grupo de teatro e ou trabalhos individuais, contribuindo assim para a afirmação de uma identidade artística.
    Outro ponto que considero de extrema relevância para a melhoria das produções artísticas em grupos de teatro, é a promoção continuada de intercâmbios de saberes entre produtores. O investimento nas trocas de experiências certamente permitirá um fortalecimento do mercado de produtores culturais que atuem na sustentabilidade de grupos artísticos. Investir na profissionalização deste importante agente na estrutura teatral torna-se cada vez mais necessária, uma ação conjunta entre artistas produtores trará um diferencial para este profissional e toda “engrenagem” de um grupo teatral será mais valorizada.


    CONTINUA...

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  3. No Manifesto Arte Contra a Barbárie, são abordados pontos cruciais que ainda não foram implementados como a criação de Programas Permanentes para as Artes Cênicas nos âmbitos
    municipal, estadual e federal com recursos orçamentários e geridos com
    critérios públicos e participativos.
    outra coisa que o manifesto diz é que a produção artística vive uma situação de estrangulamento que é resultado
    da mercantilização imposta à cultura e à sociedade brasileira.
    "Reafirmamos o compromisso ético com a função social de nosso ofício e de
    nossa Arte.
    Hoje o pensamento está sendo reduzido a mercadoria. A Cultura ocupa apenas
    0,2% no Orçamento Geral da União. O pensamento artístico no Brasil vale 0,2%
    das preocupações oficiais"
    "Cultura é prioridade de Estado, por fundamentar o exercício crítico da
    cidadania na construção de uma sociedade democrática."
    Isso foi escrito há 10 anos. Eu pergunto: hoje algo mudou?

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  4. Li em algum lugar que a maior parte dos baianos ainda é composta por filhos da ditadura. Antes da militar, arriscaria eu, ainda a ditadura escravista. É tempo demais de mente apertada.

    Sim, sim, as coisas estão mudando. Em grande parte graças a pessoas como você, que são apaixonadas demais pra se deixar levar por todas as dificuldades que esta área (essencial para a humanidade) passa.

    Meus parabéns pela sua paixão :)

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  5. O texto sugere muitas boas reflexõs...
    Concordo que não se pode perder tempo esperando por tempos melhores... Podemos pelo menos tentar criar e discutir formas de sustentabilidade! Essa espera por subsídios do poder público está se tornando uma dependência doentia...
    Uma coisa não se pode negar: recursos do poder público devem ser direcionados às coisas públicas. Aprendí com um grande mestre que tais recursos são guardiões das formas culturais de tradição; portanto, não deveriam fomentar criações particulares - quase sempre produções individuais cuja aceitação pública é imprevisível. (êle foi "crucificado" por dizer isso, portanto vou omitir o seu nome!)
    O uso de recursos públicos exige submissão a postulados da cultura que o gerou, e não suporta divergencias de pensamento. Isso impede a chegada do novo. Doa em quem doer, o problema é que grande parte das produções contemporâneas se orienta pelo "fazer descer pela goela"...
    Discordâncias à parte, o importante é ter em mente que os vencedores quase sempre são conquistadores, dificilmente prostados à espera de provisões. O convite de Daniele França é oportuno: vamos nos articular politicamente, e entendo que isso requer menos disputas e menos rivalidades, a favor de mais fraternidade e algum reconhecimento sobre quem conquista.
    O importante é partir para posturas mais maduras e arrojadas...

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