O homem costantemente é lançado de volta para si mesmo

O importnte é compreender, escrever é uma questão de buscar essa compreensão.

quinta-feira, 30 de junho de 2011


O ser envolto nas suas camadas,
água que brota do ventre no seio da terra.
Onde tudo se transforma no ser uno.
Ser terra no centro quente guia da vida sol,
luz no imenso universo uno.
Do amor fez-se a vida, da vida um ser em sua plenitude.

sábado, 14 de maio de 2011

ANTONIN ARTAUD: A existência em uma prática poética


Todo artista que está de acordo com sua arte, que faz dela sua vida potencializando a existência em uma prática poética é fortemente julgado como louco, ou a frente do seu tempo. Artaud foi um homem assim, ganhou milhares de adjetivos por buscar ser apenas Artaud, um homem que viveu no seu tempo e refletiu o mesmo, mesmo que nem sempre tenha sido compreendido.
“Ninguém mais sabe o que é viver, porque viver á afirmar-se em si mesmo, a todo instante, encarniçadamente, e esse é o esforço que o homem de hoje não quer mais fazer”(Antonin Artaud)
Artaud foi um homem poético, aquele que vive da poesia, vive para viver, cria sua poética para estar vivo. Isso é muito presente em seus escritos, na sua forma de atuar e compor as personagens. Pelas fotos é possível perceber o quão vivo era o seu olhar. Um olhar capaz de penetrar no intimo humano, vivamente pulsantes.
“Ali onde outros propõem obras, não pretendo nada além de mostrar meu espírito.”
Isso revela que Artaud é a sua própria “obra”, um homem nu. Para ele tudo que criou está ligado a ele, a sua vida, tudo move a vida.
Imerso em descobertas como todos os humanos em busca de um “Eu”, Ataud é contra a literatura de ficção e tem o desejo de escrever um livro que mexa com os homens, uma porta aberta, um abandono da realidade. Ele reivindica algo para negá-la, defende um ponto de vista e seu oposto, defende e renega e volta a defender. Seu pensamento gira em torno de através da vida verdadeira tocar a literatura verdadeira,no específico da literatura, o teatro verdadeiro, a verdadeira verdade. Sua verdade é a produção vinda do sonho sobre a vida e da imaginação da morte atuando sobre ambas as coisas.
“sou um abismo completo.”
“Um homem só se possui através de lampejos esparsos, e mesmo quando se possui não alcança sua totalidade.”

É justamente a angustia de certeza de nunca encontrar que faz com que o homem a busque incessantemente.
Vivemos em um mundo preconceituoso diante da loucura, talvez pelo medo que temos de ficar loucos ou de chegar perto desse estado de consciência, na época de Artaud isso era igualmente presente na sociedade quiçá mais forte e castrador que hoje. Com isso, denominações como “fúria fanática” e “heroísmo realmente louco” foram designados para Artaud e seu livro “O Teatro da Crueldade”.
Para a maioria das pessoas a arte parece ser aceitável enquanto elemento de um mundo irreal, fictício, longínquo, no qual se brinca de acreditar sabendo que não se acredita em nada dele. Quando aparece alguém dizendo que essas imagens são críveis, necessárias, palpáveis, o único recurso é o de julgar como delirantes, esquizofrênicos. Despreza-se e interna o poeta.
O que a sociedade exige de um artista é exatamente o contrario, se busca uma forma, o arcabouço de fantasmas, o banho de hipocrisia. O poeta é admissível desde que não acredite no que faz, desde que seja diferente do que diz ser. A sociedade suicida,aborta tudo que é radical, profundo, poetizante da existência.
Como suas apresentações eram chocantes, polêmicas e por tanto incomodas Artaud justifica seu internamento dizendo que a taumaturgia não é internável, mas o delírio sim. Queriam se livrar do taumaturgo existente nele. O que mais impressiona na história de Artaud é a sua lucidez, diante de tanto sofrimento, presente nas cartas escritas por ele pedindo para parar de tomar eletros-choque, denunciando os tratamentos, acusando a sociedade de o ter suicidado.
Artaud foi um reivindicador do sentido da linguagem, quebrando normas de pontuações, trazendo uma nova visão espacial, no papel com as palavras e frases. Isso é presente nos seus escritos de Rodez e nos textos, Van Gogh e Para Acabar com o Juízo de Deus.
O teatro proposto por Artaud é aquele que leva o homem ao transe, estado que permite ao homem ver o mundo sob nova luz e ver-se aí. Um teatro perigoso, o homem deverá correr todos os riscos que ele representa para si mesmo, o lugar do reconhecimento físico das imagens da existência e dos meios de provocar transes através delas.
O que se procura é descer mais fundo, remexer numa camada que foi recalcada para o inconsciente, a camada do que não é bem religioso, mas o sagrado, as bases e as condições da vida humana. Rompe-se com linguagem para tocar vida cada um constrói suas imagens, seu céu e seu inferno. Busca-se a linguagem com o outro a interação com a vida. A obra deve mudar continuamente o espetáculo precisa se renovar para que permaneça vivo.
A revolução Artaudiana continua viva, seus pensamentos são inspiração para grandes estudiosos, encenadores e amantes da arte dramática como o Living Theatre, o laboratório de Grotowiski, o Oficina, entre outros.
“A questão que agora se coloca é saber se neste mundo que escorrega, que se suicida sem perceber, existe um núcleo de homens capazes de impor esta noção superior do teatro, que nos desenvolverá a todos o equivalente natural e mágico dos dogmas em que não mais acreditamos”
“Há no mundo da sensibilidade
Timbres,
Volumes de voz, mascaras de ar e tons
Que forçam a vida a sair
de suas referências.”

A formação do ator construtor de conhecimento



Falar do ator construtor de conhecimento é falar de um ser social, que constrói e é construído pelo meio em que vive, partilhando com outros seres vivos o processo vital. A vida é um processo de conhecimento e o ator seu estudioso. Para entender como se dá esse processo é preciso conhecer como os seres vivos conhecem e se relacionam com o mundo. A mente é o espelho da natureza, extraímos informações por meio de representações mentais, que são o que constitui o mundo do indivíduo. A trajetória de vida de um ser humano, um ator, é o que os forma. Assim, a formação e o conhecimento são fruto de uma atitude ativa pela interação: aprender vivendo, viver aprendendo. O ser vivo é autônomo (autoprodutor), capaz de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio: vivem no conhecimento e conhecem no viver, por isso não podem se contentar em receber passivamente informações e comandos vindos de fora. A autonomia consiste na capacidade de especificar sua própria legalidade, aquilo que lhe é próprio. Não funcionam unicamente segundo instruções externas. O processo se dá através da união do meio externo com o universo autônomo do homem, numa dinâmica circular. Se levarmos em consideração que o homem é observador e que o mundo é observado, sendo que essa relação se alterna de quando em vez, não existe hierarquia entre ambos e sim cooperatividade entre o que é subjetivo e quantitativo. A subjetividade tanto quanto a objetividade, a qualidade tanto quanto a quantidade, verdades indispensáveis ao conhecimento, à ciência. Assim se tem a compreensão de como se experiência o que se observa. A construção do conhecimento do ator consiste em unir ciência e experiência humana, o universo objetivo e subjetivo da encenação partidos da vida. Ninguém ensina um ator a ser ator, assim como ninguém ensina um poeta a ser poeta, um pintor a ser pintor, um bailarino a ser bailarino. No entanto existe um conjunto de valores e pensamentos a cerca dessas formas de se comunicar que conduzem, como referência, a formação e a construção desses. No caso da formação do ator existem infinitas formas de se "formar" um ator, no entanto a formação verdadeira de um conhecimento se estabelece relacionando-se com o meio, agregando tudo que ocorre em sua volta. O ator se forma a cada luz que toca sua pele, cada passo, cada ar, cada espetáculo visto, técnicas experienciadas, tudo é material para a sua construção mutua e continua.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A mamãe desprezada


As obras de arte da África negra, frutos da criação coletiva, obras de ninguém, obras de todos, raramente são exibidas em pé de igualdade com as obras dos artistas que se consideram dignos desse nome. Esses butins do saque colonial podem ser encontrados, por exceção, em alguns museus de arte da Europa e dos Estados Unidos e também em algumas coleções privadas, mas seu espaço natural é nos museus de antropologia. Reduzida à categoria de artesanato ou expressão folclórica, a arte africana só consegue ser digna de atenção alinhada entre outros costumes de povos exóticos.
O mundo chamado ocidental, costumado a atuar como credor do resto do mundo, não tem interesse em reconhecer suas próprias dívidas. No entanto, qualquer um que tenha olhos para olhar e admirar, poderia muito bem perguntar : Que seria da arte do século XX sem a contribuição da arte negra? Sem a mamãe africana, que lhes deu de mamar, teriam existido as pinturas e as esculturas mais famosas do nosso tempo?
Numa obra publicada pelo Museu de Arte moderna de Nova York, William Rubin e outros estudiosos fizeram um revelador cotejo de imagens. Página a página, documentam a dívida da arte que chamamos arte com a arte dos povos chamados primitivos, que é fonte de inspiração e plágio.
Os principais protagonistas da pintura e da escultura contemporâneas foram alimentados pela arte africana e alguns a copiam sem ao menos dizer obrigado. O gênio mais alto da arte do século, Pablo Picasso, sempre trabalhou rodeado de máscaras africanas, e essa influência aparece em muitas maravilhas que deixou. A obra que deu origem ao cubismo, Les demoiselles d’Avinyó (as senhoritas da rua das putas, em Barcelona), contém um dos numerosos exemplos. O rosto mais célebre do quadro, o que mais agride a simetria tradicional, é a reprodução exata de uma máscara do Congo exposta no Museu Real da África Central, na Bélgica, que representa um rosto deformado pela sífilis.
Algumas cabeças de Amedeo Modigliani são irmãs gêmeas de mascaras do Mali e da Nigéria. As guarnições de signos dos tapetes tradicionais do Mali serviram de modelo para os grafismos de Paul Klee. Algumas das talhas estilizadas do Congo e do Quênia, feitas muito antes do nascimento do Alberto Giacometti, poderiam passar por obras suas em qualquer museu do mundo e ninguém se daria conta. Poder-se-ia fazer um joguinho de diferenças- e seria muito difícil identificá-las – entre o óleo de Max Ernst, cabeça de homem, e a escultura em madeira da Costa do Marfim Cabeça de um cavaleiro, que pertence a uma coleção particular de Nova York. A Luz da lua numa rajada de vento, de Alexander Calder, traz um rosto que é clone de uma máscara luba do Congo, pertencente ao Museu Seattle.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Praça da Piedade



Estou sentada em um banco na Praça da Piedade, é fim de ano, as pessoas passam com suas sacolas cheias de presentes, com pressa. E eu, ali... vendo as crianças da Piedade que pedem dinheiro na sinaleira. Seus pais, tios, parentes de longe observam os meninos. São crianças de todas as idades que entre o verde e o vermelho brincam.
Na praça tem o menor que engatinhar de um lado a outro, com um pedaço de pão que eventualmente ele leva a boca comendo um pedaço misturado as fezes dos pombos. Do seu nariz, escorre um grosso catarro verde. A mãe observa de longe Matias, sentada no chão. De quando em vez um transeunte desavisado quase passa por cima de Matias, outro o olha com desprezo.
Matias é uma das crianças mais lindas que já vi, ele é livre, dono daquele espaço.
Ele chega perto de mim, ele me toca com sua mãozinha, ele me olha e sabe que eu o observo. Desconcerto-me, o menino me causa ... medo, nojo, impotência. Seu olhar me rende e já o tenho nos braços. Seus irmãos se aproximam me convidam a brincar, me mostram uma nova forma de ver o mundo. Abandono minhas malas e aceito o convite.
Por instantes esqueci que era um observador no banquinho da praça, agora comungava uma experiência.
O pai chama os meninos para tomar banho, volto ao banquinho e os vejo na fonte. A mesma água que eles bebem, cozinham, se banham, é a água que um dos meninos está mijando, mas isso só é estranho para mim que estou no banquinho. O banho se completa com uma roupa limpa e uma água de cheiro. São 17hs e os meninos precisam ir para casa.
E fico de longe com esse olhar pequeno-burguês.

domingo, 25 de julho de 2010

Frida Kahlo








"Quando o olho gira para dentro. E poucos são os olhos que conseguem fazer isso, a paisagem vista pode não ser a mais bela. Contudo, é o que se tem."
(Trecho do livro O Ensaio Sobre a Cegueira)

sábado, 17 de julho de 2010

Conversas sobre cultura (Manutenção de grupos) – Xisto Bahia


Hoje tivemos um dia de intenso debate e provocações. Grupos de teatro e dança da cidade compuseram três mesas, onde foram abordados temas como: gestão de grupo, editais de manutenção e apoio para grupos, desejos artísticos, meios de sustentabilidade, retorno financeiro, conexão e interatividade com outros grupos, dentre outros. Diante de temas como esses, me sinto inquieta, com o desejo de entender esse universo tão vasto.
Tantos grupos, um desejo em comum: voltar o olhar para si.
O Dimenti diz que era preciso criar alternativas para que o grupo não morresse buscando interagir, conectar-se com outros grupos e novas linguagens. O Bando nasce com o desejo artístico de se expressar, buscar redes de interação com grupos, mesmo após 20 anos o grupo enfrenta as mesmas dificuldades em manter-se. O Tran-Chan há trinta anos vive de editais, com a linguagem da dança busca difundir um pensamento estético-poético-político. A Sua Cia de Dança, com muita sinceridade busca entender sua importância e valor artístico. Os Novos Novos com crianças nos emociona para falar do universo desses através da arte, com um trabalho iluminador propositor de uma juventude consciente, questionadora. O Vilavox com toda sua força política, irreverência e alma, se desnuda para falar da busca por autonomia. A Outra Cia de teatro com a coragem e força para viver dos seus feitos. E João Perene Núcleo de Investigação Coreográfica busca propor uma reflexão sobre a identidade do grupo. Na platéia, artistas que como eles fazem arte “pelo inferno e céu de todo dia”.
O que os grupos querem é preservar sua historia e repertório, se capacitar em áreas convergentes ( edição de vídeo e áudio, iluminação, gestão de grupo, dentre outros), ampliar sua atuação no mercado, ser assistido pelo maior numero de pessoas nos mais variados espaços. Busca-se construir um pensar artístico através de pesquisas que resultam numa criação artística. A busca pelo público é algo recorrente, ir ao seu encontro, sair da caixa cênica, ir para a rua, usar espaços não convencionais.
A principal questão abordada talvez tenha sido a necessidade de sustentabilidade pessoal, através da arte, fugir do segundo emprego “viabilizador” do fazer artístico.
Fica claro em encontros como esse a necessidade do dialogo entre a classe artística, a carência de nós, a falta de conhecimento e troca entre grupos com inquietudes muito próximas. Alem disso a falta de debate e articulação política para propor melhoras as autoridades públicas. Não sabemos como funciona a secretaria de cultura, a quem pedir “socorro” para manter nosso fazer teatral. Sozinha a secretaria de cultura não tem como abrigar nem virar mãe dos grupos. Mas leis antigas podem e devem ser rediscutidas para que sejam melhor executadas, e novas leis podem ser criadas visando atender as atuais necessidades. A gente precisa propor um diálogo efetivo com a secretaria do estado, como fez o Movimento Arte Contra a Barbárie, criado em São Paulo no final dos anos 1990, onde artistas e grupos de teatro, além de intelectuais, questionavam o modelo de financiamento da cultura baseado exclusivamente no incentivo fiscal e a falta de diálogo entre o poder público e a sociedade. E hoje, na nossa cidade, o que devemos questionar?
Em outros encontros tem se falado muito do momento atual como um momento de crise nas produções artísticas, jogando a “culpa” na falta de dinheiro para produzir bons espetáculos. Mas será que o problema está só na falta de dinheiro? Ou tímidas propostas têm sido feitas? Se tivéssemos todo o dinheiro do mundo, será que bons espetáculos seriam feitos, com propostas inovadoras, provocantes? No manifesto publicado pelo movimento Arte Contra a Barbárie eles dizem: “A aparente quantidade de eventos faz supor uma efervescência, mas, na verdade, disfarça a miséria dos investimentos culturais de longo prazo que visem à qualidade da produção artística”.
O dinheiro destinado a cultura no estado da Bahia não chega nem perto do ideal, seu percentual é inferior ao da maioria dos estados Brasileiros, que já é pouco, se comparado ao de países considerados desenvolvidos. Não temos mercado de trabalho. Tenho tanto medo quanto meus colegas da escolha que fiz, mas agora é tarde, estou inflada demais para desistir, envolvida e com todas as culpas para me culpar de qualquer coisa, apaixonada demais para acreditar que o dinheiro possa ser o maior impeditivo de novas ações artísticas.
Quero parabenizar todos os artistas que com coragem perseveram e criam, mesmo quando tudo parece estar perdido. Que esses que fazem sejam exemplo para os que esperam tempos melhores, pois são os construtores do novo tempo. Que novas leis sejam propostas e debatidas para que tenhamos melhores condições de trabalho, vamos criar e discutir formas de sustentabilidade. Puxemos um pouco a responsabilidade, pela atual realidade dos artistas baianos, para nós, pois é a única forma de reagir, se articulando politicamente, buscando sempre entender como as coisas funcionam.